Galera, ai vai um texto antigo que escrevi. Amo muito este conto, pois o fiz em uma época especial, para uma pessoa que me foi muito especial e hoje é um dos meus melhores amigos.
.
.
.
.
Havia há muito tempo, em lugar algum, uma pequena cabana, quente e aconchegante no inverno com o estalar da madeira na lareira, e muito fresca no verão, invadida pelo suave cheiro das flores do campo, que cresciam ao distante, onde morava um jovem rapaz filho de mercadores e a muito tempo não via sequer sombra de algum parente, primos, primas, irmãos, irmãs, sobrinhos ou mesmo seus pais. Mesmo sendo muito simples não lhe faltava nada afinal era sozinho naquele lugar, onde viva alma não passava nem se acaso tivesse se perdido já que ali não havia avenida ou mesmo viela que levasse a algum lugar interessante, apenas a pequena estrada de terra batida que passava beirando a fronte do imóvel. Mas mesmo assim, nada lhe faltava.
Quando queria algo que não lhe fosse possível produzir, já que ele mesmo plantava, cuidava e colhia a maior parte de seu sustento nos fundos de seu terreno, investia viajem até a cidade mais próxima que de próxima não tinha nada. Era de vez em outra que se encontrava com algum conhecido, como o dono do mesmo mercado que há tantos anos freqüentava de tempos em tempos, para comprar coisas como pão e couro, pois estes ele não tinha o menor talento e nem condições para produzir.
O vinho era ele mesmo produzia e tinha muito orgulho disso, pois aprendera, quando muito garoto, a fazê-lo com seu pai. Mas faz tanto tempo que nem saberia dizer como eram as manhãs em família, as atividades no vinhedo ou qualquer coisa que signifique recordação. Apenas sabia que fora seu pai que lhe ensinara a fazer tal arte e isto ele jamais esqueceria.
Sua vida corria tranqüila e sem maiores agitações das quais o rapaz também não sentia a menor falta já que não as conhecera em sua vida.
Vez ou outra como se um anjo triste encostasse cá em seu ombro, se afundava em profunda bebedeira e melancolismo, como se lhe faltasse algo no coração, talvez uma companhia, uma garota por quem se enamorar, quem sabe um cão para latir quando se aproximasse alguém, se bem que neste caso um cão ou uma tartaruga tanto faria diferença já que nunca ninguém por ali passava.
Certo dia, à noite, bem depois da hora da retirada o jovem rapaz ouviu algo vindo do lado de fora da casa. A chuva malhava sem piedade o solo que até dava pena das frágeis flores do campos que cresciam ao longe. Tal era a tormenta que o som das gotas batendo no telhado pareciam querem derrubar a pequena e frágil construção. O céu, carregado de escuridão, de forma que para quem nunca havia visto, parecia acabar o mundo e tal escuridão só era esquecida quando um daqueles raios, que mais pareciam lanças, vinha trepidando e estalando de ódio em direção a terra, como se mirassem em algo ou alguém, desprotegido naquela tempestade em campo aberto. Já não bastasse a chuva e os trovões, o vento assobiava qual riso de “coisa ruim” em dia de enterro, que gelava a espinha de qualquer cristão e com certeza não havia qualquer padre, bispo ou arcebispo que teria fé ou mesmo coragem de exorcizar aquele mau tempo, se reservando apenas e se enclausurar em sua cela atrás da sacristia e rezar algumas Ave Maria, demais Pai Nosso ou qualquer outra coisa até o fim da tormenta.
O rapaz ouviu sim alguma coisa, mas não eram as gotas da chuva, nem os trovões, nem o vento e muito menos o lamento do padre e que também seria impossíveis de se ouvir até mesmo no dia mais calmo e limpo do ano, pois era impossível já que a igreja tão longe ficava. Mas não era tão impossível quanto aquele som, era realmente um murmúrio, mas de quem já que não se passava alguém alia a tanto tempo que o mato já tomava conta da estradinha? Uma voz rouca clamava por ajuda e se o rapaz tivesse prestado mais atenção teria ouvido o som de passos se arrastando pela lama tal qual zumbi que não agüenta o peso do próprio corpo. O que seria aquilo? Uma brincadeira de mau gosto do “coisa ruim” ou talvez uma armadilha do gênio da tempestade tramando em atirar um raio sobre aquele simples jovem quando do lado de fora saísse para averiguar o que se ocorria. Mesmo com tais possibilidades, a reação do rapaz foi tão imediata ao som que nem risca destes pensamentos lhe passaram na cabeça. Atirou-se correndo do lado de fora da casa com um cobertor e uma vela para iluminar o caminho, como se tal vela fosse mágica e suportasse a tamanha chuva. Sem nem perceber, estava a andar pelo barro carregando nas costas um cobertor totalmente molhado que só aumentava o fardo da missão e nas mãos uma inútil vela apagada que não durou nem a primeira rajada de vento ao abrir a porta. O som já não era tão nítido. Onde estaria este alguém que lhe pedira ajuda?
Estafado com o esforço, investiu de volta a casa, pois já estava bem longe e o som já não era ouvido a mais de quarenta minutos. Foi quando no meio do caminho tropeçou em algo, ou melhor, alguém. Isso mesmo, alguém estava ali no chão caído no meio da lama totalmente irreconhecível, pois o barro já estava quase a lhe cobrir por inteiro. Sem nem pensar duas vezes e como se sua força tivesse vontade própria, o jovem carregou aquele corpo para dentro de sua casa o mais depressa possível.
Somente dentro da casa o rapaz parou para observar quem ou o que havia carregado nas costas até então. Era um rapaz de cabelos alourados e pele pálida aparentando uns vinte e seis anos. Rapidamente o rapaz banhou, trocou o cuidou dos ferimentos daquele estranho que não se sabe como chegou até ali e o qual, já não mais desmaiado e com uma aparência mais saudável, dormia profundamente um sono pesado e cansado da ocorrido.
Logo pela manhã o sol raiava belo e suave pela pequena janela e banhava uma bacia de água límpida que foi usada para aparar uma desagradável goteira que se criara bem no meio da sala decorrente da chuva da noite anterior. Pássaros brincavam nas poças de água como se nem tivessem sido afetados pela tormenta e o aroma das flores do campo invadia novamente a casa. Mas qual seria o estrago feito na plantação e no celeiro por causa do forte vento? Haviam cercas a serem arrumadas, tábuas a serem pregadas, chãos para arar e muitas outras coisas a se fazer. E o que fazer com aquele estranho dormindo no quarto, afinal não se sabia de onde vinha. Mais antes de se preocupar com qualquer coisa, um bom café da manhã era necessário e o estranho visitante deveria também estar faminto. Enquanto preparava todo o desjejum o rapaz foi surpreendido por um volto que se aproximava e que caiu desajeitado no meio da cozinha. Era o estranho que ao menos tinha forças para se levantar. O rapaz o ajudou a se sentar e perguntou: Qual seu nome e de onde veio estranho?
Quem sou? De onde vim? Esperava que pudesse me responder, mas não me desaponto, pois tu fostes meu salvador. E qual o nome de meu anfitrião?
Lucas, respondeu o rapaz. Mas lembro que por ser o sétimo filhos do primeiro filho de minha avó ela me chamava de “Sétimo” e que foi transformado em apelido pelos meus irmão que me chamavam de “Sete”, mas você deve estar com fome, coma e depois descanse enquanto cuido de arrumar os estragos feitos pela tempestade.
E não se importa de me deixar aqui sozinho em sua casa? Nem me conheces e abre tuas portas a mim dessa maneira.
Não me importo. Há tanto tempo que viva alma não aparece por aqui que prefiro desfrutar de um pouco de companhia, mesmo que não a conheça. Vou indo, pois há muito a ser feito.
No primeiro dia o estranho ficou na casa e recuperou suas forças. Conversaram um pouco à noite antes de dormirem. Falaram da chuva, do clima, do campo e dos estragos feitos pela tormenta. Cogitaram de onde o estranho poderia ter vindo, mas sem sucesso, pois o mesmo não se recordava de nada.
No segundo dia, já com as forças milagrosamente repostas o estranho ajudou o jovem Sete nas reformas, até mesmo a goteira foi reparada.
Os dias foram passando e agora, como há muito tempo não tinha, o rapaz tinha uma companhia que lhe ajudou muito nas reformas e na retomada do plantio. Tinha com quem conversar e alguém que lhe ajudasse. Sentia como se tivesse reencontrado um irmão que a muito não via, como se o conhecesse mesmo sem saber nada de sua vida.
Na oitava manhã da estadia do estranho, um vento gelado invadia a casa pela porta entreaberta da entrada.
Sete levantou e prontificou-se a fechar a porta e foi quando se deparou com um bilhete deixado na mesa de centro. Junto com o bilhete haviam duas rosas, uma branca e uma amarela. O bilhete dizia: Muito obrigado pela hospedagem e por não questionar quem sou além do necessário. Lembrei apenas de meu nome. Preciso voltar de onde vim e por não ter como lhe agradecer deixo-lhe estas rosas. A branca é a rosa da confiança, por tu teres confiado em mim antes de me questionar. A amarela é a rosa da amizade, por teres estendido à mão amiga a mim quando necessitei. Cuide delas com muito carinho. Um dia nos reencontraremos novamente. ASS.: Santhiago.
Da mesma forma estranha que chegou, o tal Santhiago se foi não se sabe para onde. Mas sem se preocupar com o destino do mesmo, pois sentia que ele deveria estar bem, o jovem Sete tratou de plantar as rosas uma em cada vaso. Cortou-lhes um toco do caule e o dividiu em dois para que as proteínas da terra chegassem de maneira mais rápida nas pétalas. Estranhamente a rosa amarela não tinha espinhos, apenas folhas lisas e arredondadas enquanto a rosa branca não tinha folhas, mas tinha muitos espinhos tornando-a difícil de tratar.
Mesmo com todo o cuidado, dando-lhes água, boa terra e carinho a rosa amarela não estava perdurando, então em uma manhã antes de ir ao trabalho campal, o jovem Sete colocou o vaso da rosa amarela no beiro da janela, torcendo para que o sol lhe desse nova vida.
Voltando percebeu que a rosa amarela havia caído e seu vaso se quebrado por causa de uma rajada de vento, comum naquela época do ano, que maldosamente balançou as cortinas. Então o rapaz tratou de plantar a rosa no mesmo vaso da rosa branca, pois não havia outro no qual instalar aquele presente lhe deixado e que tanto apresso lhe tinha.
Surpreendentemente com o tempo, ambas as flores cresceram e ficaram mais lindas do que nunca se havia visto, além de se entrelaçarem de forma que seria impossível separá-las sem causar algum dano. Também entre elas nasceu um pequeno botão que foi cuidado pelo rapaz com o maior apresso como fruto de algo inexplicável.
Com o tempo outro e mais outro botão de rosa apareceram, vermelhos como sangue assim como o primeiro que não havia mais espaço no pequeno vaso, obrigando Sete a transplantar todas as flores para o jardim externo frente à entrada da casa.
No primeiro mês as flores se tornaram uma bela roseira e em um ano tomaram conta do jardim com flores magníficas em beleza e aroma. Eram rosas de vermelho vivo, com suaves espinho e folhas delicadas, tão lindas como qualquer por do sol.
As flores não trouxeram apenas beleza para o lugar, mas também visitantes que apareceram guiados pelo aroma. Várias pessoas passavam por ali agora, elogiando o quão belas eram aquelas jóias e cada vez que alguém visitava o jovem Sete para lhe elogiar das rosas ele presenteava esta pessoa com um botão de suas rosas vermelhas e quanto mais ele dividia seu tesouro, maior ele ficava.
Um certo dia uma bela jovem veio pedir ao dono das flores se poderia levar algumas de suas flores para vender e assim conseguir um pouco de dinheiro para comprar pão e saciar sua fome. Sem avareza, Sete ofertou-lhe um belo buquê e lhe disse: Pode ficar com estas flores, mas se tens fome então ceie comigo esta noite assim terei companhia.
Durante a ceia conversaram muito e Sete descobriu que a moça não tinha família e era muito sozinha. Todos tinham morrido de um doença que ninguém soube explicar e mesmo se tivessem tentado não conseguiriam, pois a simplicidade da moça a impediria de entender o processo de uma simples gripe.
Sete a convidou então a ficar. Ela o ajudaria no plantio, teria onde ficar, comida e ele teria alguém para conversar todo fim de tarde até o anoitecer.Lucas “Sete” nunca mais se enterrou em suas profundas bebedeiras de solidão. O sentimento entre eles foi crescendo como as rosas e o inevitável ocorreu, se apaixonaram. Moraram ali ao longo de suas vidas, cuidando de suas rosas e seus filhos.
Um noite, em um sonho, Sete sonhou com o antigo amigo que lhe deixara as rosas. No sonho ele lhe contava quem era. Santhiago era um anjo, mais precisamente o anjo da guarda de Sete, que havia caído, pois tinha sido atingido por um raio na tempestade. Santhiago explicou a Sete que as rosas só resistiram, pois foram postas juntas. A rosa amarela da amizade continuava sozinha, mas a branca da confiança não resistiria longe da amizade. Juntas criaram a rosa vermelha do amor que quanto mais se dá mais se tem.
A amizade é como uma rosa sem espinhos, se mantém sozinha, mas desprotegida, não dá outros frutos sem a confiança. A confiança é como uma rosa cheia de espinhos, pois é difícil de lidar, mas muito preciosa. Juntas geram a rosa vermelha, a rosa do amor. O amor é como uma rosa equilibrada de altos e baixos, com folhas e espinhos, que nasce da amizade e da confiança tratadas com um pouco de generosidade.